segunda-feira, 26 de maio de 2014
Produção de Roteiros: Seis Passos Para Um Roteiro.
Índice:
1. Introdução:
Ninguém ensina ninguém a escrever. Nem roteiros, nem textos para Internet, nem literatura, nem nada que exija criatividade e talento. O primeiro passo para quem quer escrever, seja lá o que for, é certificar-se de que leva algum jeito pra isso. Para escrever é preciso gostar das palavras, adorar a língua-pátria, amar escrever.
Se o candidato a escritor não for um gênio, pode superar as dificuldades com esforço e determinação. Mas se faltar talento e criatividade, aí não tem remédio!
Depois da descoberta do talento surgem as primeiras dúvidas: O Que, Como e Onde escrever. O Que escrever? Roteiros? Textos para a Internet? Ou Literatura?
Como escrever um roteiro para Teatro, para Cinema ou para Televisão? Um texto para a Web? Ou uma Crônica, um Conto, uma Poesia?
Onde escrever? Para mídia eletrônica, impressa ou digital?
Antes de começar a aprender, é preciso conhecer formatos, veículos e eleger um foco. Para redigir matérias jornalísticas ou peças publicitárias, o melhor caminho é cursar uma faculdade de comunicação. Mas não há faculdade de Escritores. Não há escolas que ensinem a arte da ficção.
A proposta deste trabalho é disponibilizar algumas ferramentas para o autor que está começando, ajudando-o a escolher O Que, Como e Onde escrever e servir como um guia para as pessoas que têm talento e vontade para escrever roteiros.
2. Definições:
"Eu comparo o roteirista a uma mãe de aluguel. Seu trabalho é conceber, gerar, parir e depois entregar o bebê para o diretor criar. O roteiro, quanto não é filmado, não vale nada e, depois de filmado, também não vale nada. É a peça literária menos lida e de vida mais curta, mesmo assim, sua importância é fundamental na produção de um filme". (Walter Webb).
"Eu criei um gráfico que pretende mapear as emoções do filme. É uma tentativa de tornar consciente o que passa despercebido para o roteirista. Afinal, o que queremos provocar no espectador? Um filme é pura emoção e vai deixar uma impressão neste espectador. Não se trata de um método científico, mas essa visão por dentro da ação dá mais segurança à direção e ao casting." (Anna Muylaert).
"O Roteiro é uma peça informativa que deve se limitar a fornecer dados para a equipe que vai trabalhar no filme e criar a partir desse texto. Roteiro não é produto final, é uma espécie de molde no qual você aplica uma resina, retira o produto e o molde permanece lá. Um bom roteiro é uma peça de transição, não deve ter ambições literárias, nem de direção". (Marçal Aquino).
"O Roteiro é a forma escrita de qualquer audiovisual. É uma forma literária efêmera, pois só existe durante o tempo que leva para ser convertido em um produto audiovisual. No entanto, sem material escrito não se pode dizer nada, por isso um bom roteiro não é garantia de um bom filme, mas sem um roteiro não existe um bom filme". (Doc Comparato).
"Roteiro é uma história contada em imagens, diálogo e descrição, dentro do contexto de uma estrutura dramática". (Syd Field).
"Escrever um Roteiro é muito mais do que escrever, é escrever de outra maneira: Com olhares e silêncios, com movimentos e imobilidades, com conjuntos complexos de imagens e de sons que podem possuir mil relações entre si..." (Jean-Claude Carrière).
"Roteiro é o desenvolvimento de um enredo, dentro de uma técnica determinada. O roteiro não é apenas uma arte, mas uma arte base ou uma arte básica. Em outras palavras, o roteiro é a base do cinema, do teatro e da novela / minissérie televisiva. É a planta do edifício de toda arte cênica". (Murilo Dias César).
"Roteiro é uma peça literária na qual o autor só tem um recurso: a descrição. E ela precisa ser compreendida por toda a equipe de produção. Pra todo mundo entender, não pode haver metáforas. Portanto, o bom roteirista não é necessariamente um bom escritor, mas aquele que sabe traduzir, com racionalidade e clareza, o seu pensamento visual". (Fernando Bonassi).
3. Considerações Gerais:
Considerações Gerais sobre o Roteiro:
1. Mídias e Veículos:
Para determinar o formato do audiovisual e do roteiro, é preciso definir para qual mídia ou veículo o projeto se destina: Teatro, Cinema, Televisão, Vídeo, CD ROM, DVD, Internet, Eventos, etc.
2. Teatro:
Para escrever roteiros para qualquer mídia é preciso conhecer os fundamentos do Teatro que é o pai das artes cênicas.
Há três aspectos fundamentais na arte do Teatro:
Conflito- Não há ação dramática sem conflito, mesmo que seja a total ausência de conflitos;
Sonoridade- A força de uma narrativa dramática está na sonoridade do texto expressa nas falas, nos diálogos, na locução, etc;
Estética- As imagens precisam ser criadas e visualizadas através de um conceito estético que harmonize formas, cores e movimentos, causando impacto visual no espectador.
3. Diferenças de Linguagem:
O Teatro é a arte do Diálogo.
O Cinema é a arte da Imagem.
A Televisão é um misto entre os dois. Novelas e seriados pendem mais para o teatro (diálogos) e as minisséries, para o cinema (imagens).
Já a Internet é a arte da Interatividade.
4. Formatos do Roteiro:
O modelo e a diagramação do roteiro variam conforme a mídia a que ele se destina. Existem padrões para cada tipo de roteiro.
Cada mídia exige informações preliminares adequadas à sua linguagem:
Teatro- Época, Local, Cenário, Personagens, Observações. Eventualmente pode-se incluir a Story Line e a Sinopse da peça;
Cinema - Época, Local, Locações, Personagens (principais, secundários, periféricos, extras e figurantes), Apresentador, Locutor ou Narrador. Pode-se incluir observações sobre a Trilha Sonora, Iluminação, dados referentes à produção, a story line e a sinopse do filme;
Televisão - Época, Local, Ambientação, Personagens (principais, secundários, periféricos, extras e figurantes), Escaletas;
Empresariais- Cliente, Formato, Duração, Público-alvo, Cenário, Personagens, apresentador ou locutor; Trilha, Observações, etc.
5. Ferramentas do Roteiro:
Teatro - O roteiro de teatro é composto por Diálogos, que são as falas das personagens, ao vivo ou em off e por Rubricas [vide tópico 13] que descrevem o que acontece em cena e os estados emocionais das personagens. Há ainda as indicações de sons, efeitos, trilha sonora, e efeitos de iluminação, que podem ocorrer em ocasiões específicas;
Cinema - O roteiro de Cinema é formado pela descrição das Imagens, ou seja, tudo aquilo que se vê na tela, inclusive letreiros; e Áudio, tudo aquilo que se ouve no filme, as falas das personagens, apresentador ou locutor, efeitos de som e trilha;
Televisão - O roteiro de Televisão também é composto por descrição de Imagens e de Áudio;
Internet - Em um roteiro interativo, além da descrição de Imagem e Áudio, há a Programação, que descreve as possibilidades de navegação dentro do programa.
6. Divisão do Roteiro:
Toda a ação dramática se divide em Cenas, no entanto um roteiro não precisa ser dividido cena a cena. O roteiro para teatro é dividido em Atos. Em cinema, o formato mais comum é o Seqüenciado (dividido em seqüências). Em televisão, o roteiro divide-se em blocos por causa dos intervalos comerciais, que se subdividem em seqüências. Em vídeo, normalmente, o roteiro é dividido em Blocos por assunto, que se subdividem em seqüências. Em roteiros para mídia digital, a divisão ocorre através de um menu com assuntos opcionais.
Em cinema e televisão, a forma mais usada para dividir as seqüências é a mudança de ambientação, ou seja, muda a locação da filmagem, muda a cena. No teatro, as cenas mudam com a entrada e saída de personagens.
7. Formato do Audiovisual:
O programa pode ser Ficcional ou Não-Ficcional e os formatos variam de acordo com a mídia a que se destina o projeto.
Cinema - Documentário, Longa-metragem, Curta-metragem, etc;
Televisão - Telenovela, Seriado, Minissérie, Documentário, etc;
Vídeos Empresariais - Comerciais, Institucionais, Treinamento e Produtos;
Eventos - Shows, Convenções, Inaugurações, etc.
Mídia Interativa - Comerciais, Informativos, etc.
8. Gêneros do Roteiro:
Além do formato (Ficcional ou Não-Ficcional ) o roteiro pode ser classificado quanto ao gênero:
Aventura - Western, Ação, Mistério, Policial, Guerra, Musical;
Comédia - Romântica, Musical, Infanto-Juvenil;
Crime - Psicológico, Ação, Social, Policial;
Suspense - Terror, Mistério;
Romance - Amor, Melodrama;
Drama - Romântico, Biográfico, Social, Musical, Comédia, Ação, Religioso, Psicológico, Histórico;
Ficção Científica - Futurista, Imaginário;
Outros - Tragédia, Farsa, Animação, Histórico, Séries, Mudo, Erótico, Documentário, Semidocumentário, Infanto-Juvenil, Educativo, Eventos, Empresarial ; etc.
9. Localização no Tempo e no Espaço:
Logo no início do roteiro deve-se definir onde e quando a ação transcorre.
Época - Localizar a história no Tempo - Quando;
Local - Localizar a história no Espaço - Onde.
10. Perfil das Personagens:
A personagem é um ser humano imaginário. Para compor personalidades consistentes, vivas e interessantes é preciso refletir sobre seu caráter e formação. O autor pode valer-se de suas próprias vivências e lembranças, e pesquisar sobre os dados atribuídos à personagem.
Uma ferramenta para dar corpo a elas é elaborar uma ficha contendo alguns dados como: Sexo, Tipo físico, Idade, Nacionalidade, Quando e Onde vive ou viveu, Classe Social, Raça, Saúde, Escolaridade e nível cultural, Profissão, Família, Hobbies, Hábitos, Fatos do Passado, Relacionamentos afetivos, Sexualidade, Religião, Filosofia e ideologia política, Situação financeira e patrimônio, Aspectos psicológicos, Vícios e desvios de conduta, etc.
11. Estrutura Clássica:
Embora existam diversas variáveis, a Estrutura clássica de fragmentação de um roteiro é conhecida como Ternário:
Preparação - Surge o conflito;
Desenvolvimento - Crise;
Desenlace - Resolução.
12. Rubricas e Indicações:
Esta é a parte mais importante para a audiodescrição!
As Rubricas e Indicações podem aparecer na área destinada ao áudio e entre as Imagens também. Elas devem ser claras, diretas e objetivas para que todos os profissionais da equipe de produção possam entender aquilo que o autor quer dizer. E devem ser criativas também, para que o diretor e os atores captem o clima e a densidade da ação.
Há dois tipos de Rubrica:
Rubricas de Ação - descrevem o que acontece em cena;
Rubricas de Tonalidade - descrevem os estados emocionais das personagens e o tom dos diálogos e falas.
As rubricas devem ser usadas com parcimônia com o objetivo exclusivo de descrever, de forma sucinta, o que acontece em cena e em que tom as personagens expressam suas falas. Ao exagerar no uso de indicações, o roteirista estará invadindo o espaço criativo do diretor e do elenco.
13. Movimentos de Câmera:
Para escrever para Cinema, Televisão e Vídeo, o roteirista deve conhecer os Planos de Filmagem e os Movimentos de Câmera, mas não cabe a ele definir os planos de cada cena. No primeiro roteiro ou roteiro literário, alguns movimentos poderão ser sugeridos ou descritos nas cenas-chave da ação ou para dar idéia do clima de uma seqüência. Mas caberá ao diretor e à equipe de produção, definir cada Movimento de Câmera no Roteiro Final ou Roteiro Técnico. Ao se exceder na descrição dos planos de cada seqüência, o roteirista estará invadindo o campo de ação do diretor e da equipe de produção.
4. Seis passos para o roteiro:
Primeiro Passo: Desenvolver uma Idéia.
Todo roteiro - assim como toda obra literária e toda obra de arte - começa sempre a partir de uma Idéia. Idéias valem ouro!
A criatividade pode ser alimentada pela observação e interpretação da realidade, muita leitura, pesquisa, vivências do autor, brainstorms com amigos e parceiros, etc. O importante é que cada um desenvolva seu próprio processo criativo, como por exemplo, métodos de relaxamento ou rituais simples para instigar a imaginação e despertar a intuição. No entanto, a transpiração é tão importante quanto a inspiração.
Segundo o dramaturgo Doc Comparato "Escrever um roteiro é como se tivéssemos uma câmera atrás do olho e ainda mais, pois a câmera tem maior acuidade visual do que o olho e isso a aproxima da imaginação".
Segundo Passo: Determinar uma Story Line.
Definir o Conflito (O que).
Traduzir a Idéia em um Conflito essencial e condensar este Conflito em palavras. O Conflito é a matéria prima da dramaturgia e pode confrontar diversas forças. Por exemplo: O ser humano contra outros seres humanos, o ser humano contra as forças da natureza, o ser humano contra ele mesmo, etc. Todo o bom roteiro tem um conflito essencial e pode ser resumido em uma única frase.
Terceiro Passo: Criar uma Sinopse (ou Argumento).
Definir as Personagens (Quem).
Determinar quem viverá o Conflito básico e definir o Perfil das Personagens. Uma ferramenta interessante para a criação de personagens consistentes é criar uma ficha, contendo informações diversas sobre cada uma delas, como por exemplo, seus dados, seus hábitos e costumes, religião, situação financeira, dados biográficos, perfil psicológico, crenças religiosas, filosóficas, etc.
Além das personagens, a Sinopse deve definir a localização da ação, em que época ela acontece e descrever o decurso da Ação Dramática, a estrutura da ação, descrita no próximo passo.
Quarto Passo: Elaborar uma Estrutura (ou Escaleta).
Organizar uma Ação Dramática (Como).
Definir de que maneira as personagens viverão o Conflito, ou seja, de que forma a história será contada. Para isso é importante definir o Plot da ação, ou seja, a parte central da Ação Dramática, a espinha dorsal do roteiro.
A Estrutura é a divisão da Sinopse em partes e a forma, ou seja, como a trama vai evoluir até o desfecho. Uma estrutura clássica é conhecida como Ternário (divide-se em três partes). Na Estrutura é preciso definir também o Formato do audiovisual. Para tanto, o primeiro passo é determinar a mídia ou o veículo para o qual se destina o roteiro e depois, fixar o Formato de acordo com a mídia alvo.
Quinto Passo: Elaborar o Pré-Roteiro (ou Roteiro Literário).
Incluir os Diálogos (falas ou locução) que são o fator determinante do Tempo Dramático das cenas ou seqüências. Definir as palavras que serão usadas pelas personagens que viverão o Conflito.
As Rubricas (ou indicações) devem acompanhar as falas descrevendo o estado de ânimo ou atitudes das personagens para orientar o diretor e os atores com relação ao clima de cada fala e de cada cena.
Os principais aspectos para a criação dos diálogos são a coerência e o conteúdo das falas, e a maneira como se fala.
No pré-roteiro, a narrativa, que até aqui é vista como um todo, será dividida em cenas, ou seqüências. Cada cena deve estar integrada ao todo e o desenrolar das cenas deve ter um Ritmo que resulte num tempo ideal. A harmonia do Ritmo determinará a harmonia do conjunto da obra. O Pré-roteiro é também a fase de fazer Leituras Dramáticas do texto, fazer revisões, ouvir feedbacks, refletir sobre o texto e reescrever as cenas e seqüências quantas vezes isso for preciso.
Sexto Passo: Participar do Roteiro Final (ou Roteiro Técnico).
Manejar as cenas e criar uma Unidade Dramática para o audiovisual.
O roteiro final é um trabalho de equipe que requer a interação do roteirista com o diretor, a equipe de produção e até com o elenco. É hora de corrigir imperfeições e trabalhar as imagens mais a fundo, incluindo os Movimentos de Câmera e Planos de Filmagem. Aqui também serão incluídos a Iluminação, a Trilha Sonora, o Elenco e outros detalhes de produção. Ao final deste trabalho o roteiro deve estar pronto para ser gravado.
Doc Comparato acredita que "Compete ao diretor e à sua equipe, converter o roteiro literário em roteiro técnico... Elaborar o roteiro final significa converter o Primeiro Roteiro - um texto - em uma ferramenta de trabalho que será entregue à equipe de produção para ser traduzida em imagens e sons".
Outras informações sobre audiodescrição:
• Produção de Roteiros: Introdução
• Produção de Roteiros: Considerações Gerais
• Produção de roteiros: Definições.
ORIGEM WWB - WebWrittersBrasil.
FONTE Blog da Audiodescrição. Acesso em http://www.blogdaaudiodescricao.com.br/2010/07/producao-de-roteiros-seis-passos-para.html
segunda-feira, 31 de março de 2014
Nem herois nem coitados, compartilhamos sentidos: Notícias do Blog da Audiodescrição.
por Miriam Sanger.
O teatro proporciona uma vibrante troca de experiências. Ouvintes e surdos, cegos e videntes. Nem heróis, nem coitados. O palco e sua linguagem põem abaixo o estigma de que pessoas com deficiência só podem ter dois papéis na vida.
Não Só de Pão: o mais difícil é saber quem inclui quem nessa história israelense.
O palco se enche de luz e, no meio dele, uma trupe de atores está sentada em uma longa mesa. Preparam a massa, ingrediente do espetáculo Não Só de Pão. O público está ansioso – veio assistir a uma peça de teatro encenada por atores cegos, surdos e mudos. É possível ouvir os pensamentos: como pode atuar alguém que não fala, não ouve e não vê? Então a mágica orquestrada pelo Nalaga’at Center, sediado na cidade israelense de Tel Aviv, acontece. Os atores compartilham com a plateia ansiosa, em cenas cheias de poesia, os sonhos que todos os seres humanos têm e nem mesmo uma deficiência severa é capaz de apagar. É quase um teatro do absurdo, hoje chamado de “teatro inclusivo”, que convida o espectador a entrar em um mundo desconhecido. O mais difícil é saber quem inclui quem nessa história.
Um espetáculo que traz em seu elenco atores com deficiências físicas nunca propicia uma experiência comum. Isso acontece também porque, justamente por causa da deficiência – auditiva, visual ou verbal, ou todas conjugadas –, são trabalhados com maior intensidade outros sentidos em geral relegados a segundo plano. A sonorização, mais rica, é um recurso extra, enquanto o olfato e o tato crescem em cena. Esse tal de teatro inclusivo tem clara vocação artística, obviamente, mas pelo menos nesses primeiros anos de evidente experimentação tem também o papel de quebrar a barreira do preconceito que nos divide em grupos, e nos isola. O resultado é uma experiência mágica e incômoda – põe em perspectiva as deficiências de cada um de nós.
“Ninguém sai de nossas peças da mesma forma que entrou”.
“Ninguém sai de nossas peças da mesma forma que entrou”, conta Paulo Braz, diretor do Projeto Expressividade Cênica para Pessoas com Deficiência Visual, iniciado em 2001. “Lembro dos primeiros encontros com esse grupo de atores cegos, e a situação deu um nó na minha cabeça. Como faríamos para que eles pudessem se movimentar livremente pelo palco? Esse era um aspecto fundamental do trabalho, pois nosso objetivo comum nunca foi valorizar a deficiência. E, em vez de restringir a movimentação, inventamos recursos, como o piso tátil, que permite que os atores, descalços, caminhem com segurança”, explica.
“Quando você pensa nos deficientes visuais, vem à mente a dificuldade que têm para caminhar. Não foi o que vi naqueles atores, e isso me chocou. Ao fim da peça, continuei sentada, refletindo. Olhamos para os deficientes achando que sua vida é cheia de limites, e o que vi no palco mostrou o inverso. Saí dali com um olhar diferente”, descreve Lélia Rocha, docente de Língua e Literatura Francesas na Universidade Estadual de Londrina, que assistiu duas vezes a Olhares Guardados, a segunda montagem teatral do grupo, que sucedeu à peça Cidades Invisíveis.
Enquanto diretores reveem sua estratégia e o público, suas concepções, o deficiente também precisa se reinventar, física e emocionalmente, para atuar, superando os próprios preconceitos e receios. “A primeira coisa que fizemos juntos foram exercícios para nos soltar. O deficiente mantém o corpo muito rígido: estamos o tempo inteiro armados pelo medo dos obstáculos”, conta Gleice Santana, atriz do grupo NósCegos, de Belo Horizonte, cega desde os 10 anos de idade. A trupe foi formada em 2006 pela diretora Kelly Crifer, que encontrou em cinco meninos e meninas, entre 13 e 14 anos, disposição de encarar o desafio de se expor a uma plateia que eles só podem imaginar.
“Nas primeiras apresentações eu estava ansiosa, mas também superfeliz. Sentia que, ao mesmo tempo em que eu levava arte para as pessoas, quebrava um paradigma. Ali, no palco, a gente pode tudo”, descreve a atriz. As muitas apresentações que o grupo realizou em escolas foram, em sua opinião, seu trabalho mais importante até o momento. “Preconceito começa na educação. Ao entrarmos em contato com as crianças, mostramos a elas como é possível crescer com uma nova mentalidade, mais aberta, menos excludente. Fala-se muito por aí sobre inclusão, mas a gente sabe que ela dificilmente acontece na prática”.
Compartilhar sentidos:
A inclusão é um movimento de mão dupla: a aceitação deve vir de todas as partes envolvidas, e esse aspecto precisa ser também trabalhado com os deficientes, segundo a diretora Kelly. “É fundamental combater a barreira imposta por eles. Normalmente, por causa da nossa ignorância, os deficientes reagem se acomodando e se retraindo. É preciso dar-lhes consciência de suas potencialidades porque, com elas, eles se tornam mais fortes para se expor a novas experiências". O jovem grupo chegou longe: estreou com a peça Boi sem Estrelas, em 2006, no ano seguinte encenou Os Saltimbancos e, depois, A Ver Estrelas. “Nesse processo, é evidente como esses atores passaram a lidar melhor com seus preconceitos e partiram para a ação: precisam ensinar a sua verdade para as outras pessoas”.
Sueli Ramalho, atriz, intérprete, tradutora e professora de línguas gestuais – cada país tem a sua, a do Brasil é a Libras –, faz um trabalho importante nesse sentido. Ela e o irmão Rimar Romano, também ator e surdo, montaram a Cia Arte & Silêncio, com a qual se apresentam em ONGs, empresas e instituições. Suas performances, sempre com doses de comicidade, têm como objetivo mostrar o mundo e a cultura dos deficientes auditivos. “Queremos derrubar mitos e preconceitos. Superadas as dificuldades, todos somos obviamente iguais e enriquecedoramente diferentes”, diz Sueli.
A atriz israelense Batsheva Ravenseri, cega, surda e muda, também ressalta a importância de expor sua realidade. “Quando estou no palco, me sinto importante porque sei que estou ensinando à plateia algo a respeito do nosso mundo. Muitos nem sabem que existem pessoas como nós”, conta. O objetivo das peças do Nalaga’at – que sugestivamente quer dizer “toque, por favor”, em hebraico – vai nesse sentido, segundo a diretora Adina Tal. “Nosso teatro não fala especificamente sobre surdez ou cegueira, mas sobre a imperfeição em cada um de nós. Essa experiência nos torna mais receptivos às pessoas a nossa volta”.
O diretor teatral português João Pedro Correia também tateia nessa direção. Em 2007, formou a companhia Pele, sediada na cidade do Porto e composta por atores surdos. Seu interesse vai além de mostrar ao mundo o que um surdo pode fazer no palco: quer mostrar o que uma pessoa surda pode fazer na plateia. Para isso, busca soluções que tornem o teatro acessível a esse público. “Surdo não entra em sala de teatro porque acredita que não entenderá nada. Mas, quando entra, gosta, participa e sente-se cidadão. Não há outra saída: a mudança precisa partir da própria pessoa”, opina o diretor, que até o momento montou com esse elenco três espetáculos – com a música, no último deles, como elemento de destaque.
“Estreamos em um teatro pequeno e, no fim da peça, vários surdos da plateia vieram até nós para dizer que haviam adorado a música. Então entendi que eles sentiram a vibração dos tambores em cena através do piso, e isso abriu para mim uma nova perspectiva cênica”. No quarto espetáculo, prestes a estrear, João Pedro utilizará um sistema de pastilhas que amplifica o som dos objetos em cena. “Um relógio que toca, o passar de vassouras ou um toque na porta poderão ser sentidos pelo público surdo”.
Muitas vezes desesperançados ou acomodados, os deficientes encontram uma forma diferente de encarar a vida e a si mesmos.
No Brasil, também há experiências interessantes acontecendo. Em Belo Horizonte, há poucas semanas entrou em cartaz a peça Um Amigo Diferente?, a primeira no país com total acessibilidade. Há intérprete de Libras, legenda eletrônica, programa da peça em braile e lugares para cadeirantes. Mais ainda: antes da peça, um profissional passeia pelo palco com o público cego, para que todos possam tocar os figurinos e os cenários e, assim, acompanhar melhor as cenas mais tarde, com a ajuda de audiodescrição. Em São Paulo, O Grande Viúvo, montagem baseada em texto de Nelson Rodrigues, conta com atores cegos e é totalmente encenada no escuro.
Tantas novidades – reinvenção cênica, quebra de paradigmas, revisão de preconceitos – tornam-se, no entanto, pequenas frente à revolução que o teatro inclusivo representa dentro do universo do ator deficiente. Muitas vezes desesperançado ou acomodado, ele encontra uma forma diferente de encarar a vida e a si mesmo. “O teatro foi para mim uma surpresa, porque descobri um talento meu que desconhecia”, conta João Durval, DJ conhecido da noite de Londrina (PR) que, cego desde a infância, foi convidado por Paulo Braz para integrar o grupo Expressividade Cênica. “É um mundo diferente daquele que eu estava acostumado. Na minha atividade como DJ há barulho, e por meio dela me faço ser ouvido; no palco, vivo o silêncio e me exponho. É uma sensação incrível a de ser valorizado pelo que se faz”, descreve.
Surdos fazem música no espetáculo português Quase Nada.
Batsheva também veste uma nova pele quando entra em cena: “Quando estou no palco, sinto-me como uma pessoa normal, sem nenhuma limitação”. E, para seu colega de cena Itzik Hanuna – o narrador da peça Não Só de Pão –, o ingresso no Nalaga’at foi um divisor de águas. “Minha vida ganhou sentido. Esse não foi um caminho fácil, mas me forçou a me arriscar em novas atividades, como escrever”, conta Hanuna, cego desde o nascimento e surdo a partir dos 11 anos. É no fim da peça, quando o público é convidado a ir ao palco para se comunicar com o elenco, com a ajuda de intérpretes, que Hanuna mais vibra. É um momento delicado, incrivelmente emocionante para uns e terrivelmente incômodo para outros.
“Não gostei de ter sido chamado para me aproximar deles. Parece-me que estão sendo expostos, como animais em um zoológico”, comentou o espectador Adi Tali assim que as luzes da plateia se acenderam. Se o ouvisse, Hanuna não concordaria com ele. “O contato com o público é para mim o momento mais prazeroso do espetáculo, pois é a hora em que nos comunicamos como qualquer outra pessoa. Infelizmente, para muitos é mais fácil dividir os deficientes em duas categorias: herói ou coitado. No entanto, não somos nem um, nem outro, e cabe a nós decidir se queremos tomar o destino em nossas mãos ou nos entregar. ” Pois afinal, como seu personagem descreve em uma das primeiras cenas do espetáculo, “todos nós temos ambições – não vivemos só de pão”.
Origem: Rede Brasil Atual - Número 84, Junho 2013.
Fonte Blog da Audiodescrição.
Outras informações sobre audiodescrição>>>>
Acesso http://www.blogdaaudiodescricao.com.br/2013/07/nem-herois-nem-coitados-compartilhamos-sentidos.html?utm_source=feedburner&utm_medium=email&utm_campaign=Feed%3A+BlogDaAudiodescricao+%28Blog+da+Audiodescri%C3%A7%C3%A3o%29
quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014
Inovação tecnológica e competitividade: curso na Uerj.
A Universidade do Estado do Rio de Janeiro abre inscrições para o curso de extensão Inovação Tecnológica – Visão da Empresa. Tendo como público alvo empresários, executivos, gerentes, técnicos e especialistas com nível superior, profissionais ligados à área de inovação tecnológica e estudantes de graduação a partir do 6º período, o curso acontece pela primeira vez na universidade.
O objetivo é dar aos participantes informações práticas sobre os aspectos gerenciais e mercadológicos, mostrando a importância das inovações para a competitividade das organizações e apresentando os principais conceitos, princípios e características das inovações.
A revolução tecnológica vem influindo no dia a dia das empresas, não apenas em função de inovações, mas também pela rápida divulgação e assimilação de seu uso. A inovação tecnológica constitui um instrumento eficaz e essencial para as empresas sobreviverem nesse contexto de elevada competição e se caracteriza como motor que impulsiona o desenvolvimento econômico das nações.
As inscrições estarão abertas até o dia 10 de março no site do Centro de Produção da Uerj – (www.cepuerj.uerj.br).
Mais informações:
Período do curso: de 12 de março a 26 de junho.
Dias e horários: Quartas e sextas-feiras, das 19h às 22h.
Valor: 3 (três) parcelas de R$ 400,00.
CENTRO DE PRODUÇÃO DA UERJ
Rua São Francisco Xavier, 524.
Maracanã, Rio de Janeiro, RJ.
1º andar, Bloco A, Sala 1006.
CEP: 20559-900.
Horário de atendimento na recepção: de 2ª a 6ª feira, das 09h às 18h.
Teleatendimento: (21) 2334-0639, de 2ª a 6ª feira, das 09h às 18h.
E-mail: cepuerj@uerj.br
Acesso em www.cepuerj.uerj.br
domingo, 16 de fevereiro de 2014
Pós-graduação em audiodescrição na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).
Apesar das inscrições terem sido encerradas,o Curso de Especialização em Audiodescrição, promovido pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), em parceria com a Secretaria Nacional de Promoção dos Direitos da Pessoa com Deficiência, é uma oportunidade para formação de especialistas na área.
O curso, semipresencial, visa a formação de profissionais capacitados para lidar com a audiodescrição, um recurso de acessibilidade comunicacional que amplia o entendimento das pessoas com deficiência visual em diversos tipos de espetáculos, eventos e produtos audiovisuais, por meio de informação sonora. Tem como público alvo professores e profissionais de diversas áreas do conhecimento, preferencialmente a pessoas com graduação nos cursos de Tradução, Letras, Rádio e TV, Comunicação, Cinema, Locução, Dublagem e Artes Cênicas.
O cronograma do curso de pós-graduação em Audiodescrição já pode ser consultado no site da Universidade Federal de Juíz de Fora em (https://dl.dropboxusercontent.com/u/10004244/Blog/Documentos/CRONOGRAMA-DAS-ATIVIDADES-2014.pdf)
. A aula inaugural será no dia 20 de março, no período da noite.
Os aprovados no curso poderão ter um panorama geral do mesmo, que tem previsão de início em março de 2014 e término em agosto de 2015.
Todas as aulas presenciais já estão previstas e os alunos devem consultar o cronograma com antecedência, para programarem sua vinda à Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), onde o curso será realizado. A aprovação no curso depende da presença em 75% dos encontros presenciais e 75% das atividades na plataforma de ensino a distância.
Fique atento a novas informações com relação ao processo seletivo. Contato: pos.audiodescricao@ufjf.edu.brORIGEM: UFJF.
FONTE: Blog da Audiodescrição. Acesso em
http://www.blogdaaudiodescricao.com.br/2013/11/pos-graduacao-em-audiodescricao-na-ufjf.html
quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014
Mestrado em Letras e Ciências Humanas -
Programa de Pós-Graduação em Letras e Ciências Humanas.
OBJETIVOS GERAIS DO PROGRAMA, PERSPECTIVAS E TENDÊNCIAS:
O Mestrado Interdisciplinar em Letras e Ciências Humanas destina-se à formação de pessoal qualificado para o exercício das atividades de pesquisa e magistério superior, cuja área de atuação privilegie as questões emergentes vinculadas ao discurso, à cultura e à formação humana, contribuindo para o desenvolvimento científico e para o aperfeiçoamento educacional e cultural da região em que está inserido.
Dada a sua visão da totalidade do fenômeno educativo na sociedade, explorando as conexões entre a linguagem e as diferentes ciências sociais e humanas, possui um caráter interdisciplinar e permite aos pós-graduados obter fundamentação comum e, simultaneamente, explorar em profundidade um dos eixos temáticos definidos no programa. Seus principais objetivos são:
Seus principais objetivos são:
I - propiciar uma visão de pesquisa que considere o viés histórico, social e cultural da linguagem, bem como formação teórica e prática de profissionais entre outras especialidades que têm no uso da linguagem sua principal ferramenta de trabalho e elos comuns desses campos do saber que, em diálogo permitem compreensões mais amplas;
II – criar e programar projetos de pesquisa que investiguem os fenômenos culturais e educacionais em sua relação com as práticas discursivas;
III - viabilizar a produção acadêmica sobre as articulações do sujeito social às questões de gênero e étnico-raciais e o seu impacto no contexto cultural e educacional, com vistas a perspectivas democráticas para a formação humana e sua inserção social;
IV- fomentar a interlocução e o intercâmbio permanente com Programas de Pós-Graduação e equipes de pesquisa, nacionais e internacionais, com especial ênfase na América Latina, e África.
O Mestrado Interdisciplinar que se iniciou no ano de 2008 sofreu no ano de 2012 algumas alterações nos seus fundamentos fruto das readequações das atividades de pesquisas de seus docentes e, em resposta às recomendações e críticas do comitê avaliador da CAPES.
Em primeiro lugar, os estudos realizados pela equipe permitiram nova abordagem e, maior adequação das linhas de pesquisas, numa perspectiva da importância e da necessidade de interação entre especialidades e a percepção de que os fenômenos têm dimensões que só podem ser compreendidas em suas complexidades por respostas interdisciplinares.
Neste sentido, apresentamos abaixo as transformações realizadas nos seguintes aspectos:
ÁREA DE CONCENTRAÇÃO:
Ao aprofundar os debates sobre os desafios a serem enfrentados nessa necessária cooperação entre saberes percebeu-se que além do aprofundamento dos conhecimentos científicos sobre linguagens e discursos, da busca das identidades nos vários segmentos sociais existentes nas realidades estudadas, desenvolveu-se nos últimos anos um amplo campo de pesquisas sobre educação, os dilemas da cidadania e dos direitos, das artes em suas temporalidades. Abriu-se escuta qualificada para registrar a voz dos sujeitos sociais que buscam reconhecimentos de sua presença nas histórias da Cidade de Duque de Caxias e demais municípios da Baixada Fluminense, em conexão com a História do Rio de Janeiro e demais historicidades que aproximam e separam os complexos encontros no mundo globalizado. Assim, ao invés de buscar diluir as especialidades como definidas no documento inicial da área aprofundou-se as cooperações entre os campos de conhecimentos e as possíveis contribuições de cada parte para respostas mais complexas.
Créditos necessários para a titulação: 30.
Créditos em Disciplinas: 24.
Dissertação: 6.
PÚBLICO-ALVO:
Podem candidatar-se ao Curso de Mestrado em Letras e Ciências Humanas, portadores de diploma de Graduação Plena nas áreas de atuação em LETRAS, PEDAGOGIA, HISTÓRIA, SOCIOLOGIA, FILOSOFIA, LINGUÍSTICA, GEOGRAFIA, ANTROPOLOGIA, COMUNICAÇÃO, TEOLOGIA, CIÊNCIA POLÍTICA, ARTES VISUAIS E PSICOLOGIA, emitido por Curso reconhecido pelo Conselho Nacional de Educação (CNE).
ÁREAS AFINS:
Letras, Linguística, Pedagogia, História, Sociologia, Antropologia, Ciência Politica, Filosofia, Teologia, Geografia, Comunicação, Artes Visuais, Psicologia.
DURAÇÃO:
24 Meses.
OUTRAS INFORMAÇÕES:
Central de Atendimento: 3219-4040 Rua Prof. José de Souza Herdy, 1160 - Jd. 25 de Agosto - Duque de Caxias - RJ - 25071-202. Acesso em http://www2.unigranrio.br/pos/stricto/mest-letras-ciencias-humanas/ Outras pós-graduações em
https://sga.unigranrio.edu.br/sga/Principal?alias=cursos_pos_insc_abertas
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